A Educação Primária na Revolução Farroupilha

Coluna publicada no Jornal Diário da Manhã do dia 13/09/2014

(…) Enquanto Bento Gonçalves, Antonio de Souza Neto, David Canabarro, João Antonio da Silveira,Onofre Pires,Manduca Carvalho, Gomes Portinho,Giusepe Garibaldi e muitos outros iam dilatando as fronteiras do solo redimido, em constantes vitórias, Domingos José de Almeida , esse mineiro querido e abnegado, rio-grandense de coração, ia, a pari e passo rasgando o caminho do porvir, tutelando, guiando a nova republica com a sua visão de estadista consumado.

Fazendo promulgar inúmeros decretos; traçando normas admiráveis e regulamentos capazes,Domingos de Almeida conquistou um dos lugares de maior destaque na glorioso epopéia com sua visão esclarecida de cidadão republicano. (…) Dos inúmeros decretos que fez promulgar e que saiu de sua pena diamantina, destaca-se pela sua nobreza incomparável, pelo elevado alcance, o que instituiu a criação de escolas de primeiras letras em todo o território da Republica Rio grandense.(…)Decretada a instalação de escolas em todas as vilas e povoados, houve a constante preocupação de efetivar a medida, como é fácil verificar consultando  o jornal “O POVO” órgão da Republica, na época.

O oficio circular da Secretaria do Interior, datado de 1º de agosto de 1838, endereçado ao Presidente e demais vereadores das Câmaras Municipais, esta concebido nestes termos.

“Convencido O Governo da Republica, que só por meio da difusão das luzes e da moral é que ordem prosperar e robustecer os Estados, como estes, baseados nos princípios representativos: e tomando em consequência por aquele motivo na mais séria consideração a educação e instrução da mocidade Rio Grandense, inteiramente derrocadas em todos ou quase todos os pontos do Estado pelas vicissitudes de uma guerra de três anos, qual a que sustentamos contra os opressores de nossa Liberdade e Independência, determina que Vossas Mercês, pondo em vigorosa ação o patriotismo e mais qualidades que os distinguem, façam instalar provisoriamente, com a possível brevidade tantas escolas de primeiras letras, quantas forem as povoações ou lugares notáveis de seu município provendo-as logo de mestres idôneos e instruídos, na falta dos conhecimentos do sistema Lancastre, pelo menos nas quatro primeiras operações aritméticas e suas definições, e na escrita com acerto, aos quais farão examinar por duas pessoas entendedoras da matéria e por Vossas Mercês, que igualmente lhes atribuirão ordenados adequados as circunstâncias do local onde tiverem de exercer tal magistério, dando de tudo parte ao Governo por esta Repartição para inteligência e assentamento no Tribunal do Tesouro. Outro sim lhes previno que tais provimentos não prejudiquem os professores, que na conformidade das Leis em vigor, despachados forem pelo Governo.

Deus Guarde a Vossas Mercês. Secretaria do Interior em Piratini 1º de agosto de 1838. Domingos José de Almeida.”

(…) Atentai para os termos desse oficio circular que, se condições estabelece, são somente para as qualidades do professor, que deve ser idôneo, e como os conhecimentos necessários ao ensino das primeiras letras, na impossibilidade de ter curso melhor. Atentai para o apelo aos presidentes  e demais membros das Câmaras Municipais, pedindo para por em vigorosa ação o patriotismo e outras qualidades que os distingue, no sentido de serem instaladas, com toda a brevidade possível tantas escolas de primeiras letras, quantas forem as povoações ou lugares mais destacados de cada município. (…)

       Nota: parte do discurso proferido por Firmino Ramos Soares, na Bibliotheca Publica de Pelotas, em 25 de agosto de 1935; dos Arquivos do IHGPEL, organizado por Chéli Meira, mestranda em Educação-FAE-UFPel.

A LEI DE OUTUBRO DE 1828 E AS ATRIBUIÇÕES DAS CÂMARAS MUNICIPAIS DO BRASIL IMPERIAL.

Coluna publicada no Jornal Diário da Manhã do dia 13/09/2014

As atribuições das Câmaras Municipais no Período Imperial possuíam como principal função: sustentar a felicidade pública, texto na própria Lei. No Título II, em seu Art. 24, normatiza as Funções Municipais e conforme ARRIADA (Atas C.M.P. 2012,p.21) determinou que as Câmaras fossem corporações meramente administrativas, tornaram-se apenas parte do mecanismo imperial, sem exercerem jurisdição contenciosa. Para ele este Regimento das Câmaras Municipais das cidades e vilas do Império do Brasil, aprovado em outubro de 1828, foi o documento balizador do papel a ser desempenhado pelas câmaras.

A Lei de 1º de outubro de 1828 determinou a composição das Casas Municipais são de9 vereadores para as cidades e 7 vereadores para as vilas, eleitos por escrutínio secreto para uma mandato quadrienal. Osempregados serão formados por: porteiros, ajudantes, fiscais e seus suplentes, um secretário, um procurador. Este último com mandato de 4 anos, sendo sua função a arrecadação e aplicaçãodas rendas; e conjuntamente com o juiz de paz, realizar a execução das Posturas Municipais, impondo as penas aos contraventores delas. Além de ser um defensor da Câmara em processos judiciais ordinários, prestar contas da receita e despesa trimestralmente, no início das sessões.

As sessões ordinárias serão trimestrais, o vereador que faltar às sessões, sem uma justificação pagará multa. Seus membros cuidarão da administração dos bens e obras do Conselho do Governo Econômico e Policial da Terra, e de proveito de seus habitantes: das estradas, servidões e caminhos públicos, passos, pontes. Também tinham a responsabilidade de promover a limpeza da cidade, construir e conservar fontes de água potável para uso público, ruas, calçadas, prisões públicas, gerenciar servidores, determinar local para cemitérios, etc. (LEI DE 1ª/10/1828).

A Lei de outubro 1828 especifica que os membros das Câmaras Municipais não podem:vender aforar, trocar os bens imóveis de propriedade do Conselho ou alterar a sua topografia. Caso autorizado às vendas será por leilões públicos. Devem prestar contas anualmente ao Conselho Geral e fixar editais em lugares públicos. As obras públicas são realizadas somente por pregões, e pelo menor preço.

As Casas Municipais devem exercer a função de polícia ou de fiscalização. Na economia, fiscalizar o Mercado, fazer aferições de preços, pesos e medidas, fiscalizar os matadouros públicos, arrecadar impostos, autorizar a abertura de casas comerciais: açougues, botecos, jogos espirituosos, etc.A Lei de 1828, define que é de responsabilidade das Câmaras Municipaisa gerencia da Educação, da Saúde e da Moralidade Pública. Na Educação deviam criar e fiscalizar as escolas de meninas, de meninos, as escolas de primeiras letras e dos órfãos.

Na Saúde, sua função era fiscalizar e promover a alimentação dos doentes e dos presos pobres, designar médicos, cuidar do saneamento, da vacinação, dos esgotos, da evasão de águas, da limpeza das ruas, etc. Além de cuidar e conservar as casas de caridade, hospitais, e em casos de calamidade por epidemias, como a da Cólera: promover a abertura de Lazaretos – enfermarias montadas sazonalmente.

As Casas Municipais deveriam cuidar e preservar a Moralidade Pública, zelando pela tranquilidade e os bons costumes no Município: fiscalizando as ruas em horas de silêncio, as injúrias e as obscenidades e tudo que atentasse contra a moral pública. Quanto a aplicação das Rendas Públicas a Lei de 1º de outubro de 1828 determina que,a receita será usada só para o que estiver estipulado por Lei, municipal ou pelo poder legislativo provincial. Os gastos de direito da Câmara devem dar preferência às necessidades mais urgentes, tais como: criação de casas de misericórdia, para a educação e o amparo dos órfãos, pobres e desamparados.

Assim, o estudo da Lei de 1º de outubro de 1828 auxilia a compreensão das atividades e das atribuições delegadas pelo Governo Imperial às Casas Municipais. Contribui para a compreensão das funções atuais destas casas.Pois,conforme Marc Bloch (2002, pg. 69) o presente está vinculado ao passado, existe entre eles uma relação de reciprocidade, não são desvinculados, e um ajuda a compreender o outro. Motta (2009, p.21),enfatiza que nas câmaras existem jogos de relações de poder e de práticas para o bem público e privado. Também observa que o cidadão comum entra no jogo, suplicando os seus direitos. E, ambos se relacionam formando uma cultura política coletiva pública.Por tudo isto é que a leitura desta Lei de 1828, viabiliza uma melhor interpretação das funções das Câmaras Municipais de nosso presente.

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Elenara Beatriz Santos dos Santos-Graduanda de História-Licenciatura da UFPel-Estagiária do projeto Atas da Câmara Municipal de Pelotas.

Sobre Folclore Brasileiro – primeira parte

Coluna publicada no Jornal Diário da Manhã do dia 23/08/2014

Em 1944, Joaquim Ribeiro, em seu livro sobre Folclore Brasileiro, esboçou uma divisão da música popular brasileira em áreas geográficas assinaladas pelo tipo de atividade musical predominantemente entre os seus habitantes e afinidade de elementos técnicos, encontrada entre essa e outras atividades musicais da mesma área. Estabeleceu, assim, as seguintes: 1º da embolada, no Nordeste; 2º da moda na área agrícola do Sul; 3º do Jango, na zona de influência banta; 4º dos aboios, na zona pastoril do sertão. Tomando por base esse tipo de classificação, e ampliando e apurando a de Joaquim Ribeiro, que ele mesmo considerava provisória e sujeita amodificações inspiradas “pelos inquéritos diretos, que poderão oferecer dados para sistematização mais exaustiva” podemos chegar a uma divisão do país em nove áreas, que são as seguintes: 1º Área Amazônica (na bacia Amazônica), ainda escassamente estudada; 2º Área da Cantoria (compreendendo o sertão nordestino e sua projeção pelo interior baiano), caracterizada pela prática dos desafios poéticos – musicais, canto dos romances tradicionais, das louvações improvisadas, emprego da técnica antifonal (cada estrofe confiada alternadamente a um dos cantadores), da rebeca e da viola como instrumentos acompanhantes, melodias de sento tonal debilitado ou inexistente (presença de escalas exóticas), ritmo livre, independente do tempo musical; 3º Área do Coco (no litoral nordestino), com predominância desse canto de dança e sua variante, a embolada, emprego do ganzá (chocalho geralmente cilíndrico), percussão de palmas e intervenção de um refrão coral curto, bem ritmado, no fim e ás vezes no meio da estrofe solista, que pode ser improvisada e tem sempre significação jacosa, ou mesmo satírica; 4º Área doa Autos (tendo Alagoas e Sergipe com núcleos principais, mas ramificando- se por quase todos os demais Estados), abrigando o riquíssimo folclore desses folguedos populares dançados e cantados, de origem ibérica (cheganças, fandango), de extração negra (congos, quilombos), de temática ameríndia (caboclinhos, caiapós, danças e tapuios), ou de formação cabocla (bumba- meu- boi); 5º Área do Samba (principiando na zona agrícola da Bahia  e cobrindo os Estados do Sul até S. Paulo com núcleos isolados em outros pontos de mais forte afluência negra, como Pernambuco), caracterizada pelo emprego abundante dos instrumentos de percussão e conseqüente complexidade rítmica, sistematização da sincopa, refrão coral contrapondo- se à estrofe solista e predominância da forma coreográfica do samba, de que são subsidiários o  Jango e outros tipos de dança  com os mais variados nomes, além dos cantos rituais de macumbas e candomblés;  6º Área da Moda de Viola (projetando- se de S. Paulo, onde confina com a Área do Samba, para o centro e o sul do país) caracterizada pela constância do cantos e duas vozes paralelas, frouxidão  do ritmo musical e emprego  da viola; 7º Área do Fandango  (acompanhando o litoral dos Estados sulinos), musicalmente dependente da área anterior, porém definida pela preservação de velhas danças sapateadas e palmeadas, como o chimarrita, o anu, o queru  mana, etc.; 8º Área Gaúcha (na região dos pampas, extremo sul do país), com predominância absoluta do arcodeão, lá chamado  gaita, prática dos desafios ou cantos à porfia, importação de ritmos coreográficos e vocabulário platinos; 9º Área da Modinha (dispersa pelos centros urbanos mais antigos), compreendendo  não somente esse tipo de canção tradicional, como os choros, e apresentando um tipo de melodia exageradamente sentimental, rebuscada, em que predominada o modo menor (ao contrário das demais áreas), alterada por excessivo cromatismo e abundantes artifícios harmônicos, e confiada à voz humana ou a instrumentos de sopro, como a flauta ou clarinete, com acompanhamento de violões e cavaquinhos. Sobre todas essas áreas estende- se o Ciclo dos Cantos Infantis, de acalentar crianças ou para servir ás suas rodas coreográficas e jogo; em sua maioria são cantos de pura importação européia, integralmente tradicionalizados, e conservam, até hoje, grande vitalidade.

Texto de Luís da Câmara Cascudo extraído Dicionário do Folclore Brasileiro, p.514. Parte integrante do arquivo do IHGPEL e organizado por Rosilene Silva, aluna do curso de História – Licenciatura da UFPel, estagiária do IHGPEL

 

samba

Fonte da imagem: http://www.brasilcultura.com.br/antropologia/dancas-folcloricas-brasileiras/

Embarcações do século XVIII – Final

Coluna publicada no Jornal Diário da Manhã do dia 09/08/2014

Do dia da chegada até o dia 11 de junho não foi permitido o desembarque da tripulação, provavelmente por medo de que os soldados desertassem. Nesse mesmo dia as tropas desembarcaram na Ilha das Cobras para se exercitassem com seus comandantes e com as tropas locais que foram somadas ao socorro. Fez-se então um rigoroso exercício de fogo, com avançadas à fortaleza, que parecia o maior furor da guerra. Saíram feridas algumas pessoas, entre as ditas o capitão de mar e guerra André Gonçalves Nogueira e acabou-se pelas 6 horas da tarde. No dia 13 também se repetiu o mesmo exercício, em que o General deu ordem que esta fosse a que avançasse, a assim se formaram fora da fortaleza prontos com escadas e granadas, e todos os mais artifícios de guerra e artilharia, a certo sinal avançaram à Praça por três partes e a renderam. Esses exercícios tinham como objetivo treinamento para atacar e tomar uma fortaleza, nesse caso, provavelmente Montevidéu como era a ordem do soberano português.

O conhecimento de que a frota tinha como rumo o Rio da Prata era revelado somente aos oficiais. Ao chegar ao Rio de Janeiro começou a correr o rumor entre os tripulantes sobre esse destino, o que era corroborado por toda a preparação para a guerra, apesar do esforço das autoridades em evitá-lo. Com esta notícia desertaram alguns soldados, ainda que alguns apareceram e foram castigados, pois estes não queriam ir para o inferno do Rio da Prata. Diante disso, novamente as autoridades suspenderam o direito de desembarcar. O autor do diário não dá a entender o motivo do medo da tripulação, se é temor pela guerra ou pelas dificuldades de navegação, no entanto as duas razões devem ter pesado, os embarcados vinham enganados pensando que a esquadra viria só até o Rio de Janeiro, pois o socorro sempre foi mantido em segredo para que os espanhóis não soubessem dos reforços portugueses vindos da metrópole.

No dia 25 de junho, na pior época possível para a navegação nos mares do sul, em pleno inverno, partiu a esquadra com destino à ilha de Santa Catarina. Logo no terceiro dia de viagem experimentaram mares com mau tempo, que culminou num temporal que causou grande trabalho para a tripulação. Em 5 de julho chegaram à Santa Catarina, para dar ordens ao Coronel Cristóvão Pereira de Abreu para que reunisse pessoas em Laguna e que preparasse a chegada do brigadeiro José da Silva Paes na margem sul do canal de Rio Grande, preparando os meios necessários para o estabelecimento da fortificação, que viria a acontecer quando a expedição voltasse do Prata. Cristóvão Pereira era um ótimo prático na campanha, e por isso era uma peça chave nos novos intentos portugueses na região, já que estabelecia conexões com os indígenas, os castelhanos, Colônia do Sacramento e as Minas através de seus negócios, portanto, ficava a ele a tarefa de arrebanhar o gado para a alimentação das tropas, tratar com os indígenas que ali podiam estar e preparar o terreno para a nova povoação. Neste lugar, a esquadra se carregou de mantimentos para seguir viagem e se fizeram novos exercícios com os soldados. Há um relato sobre um desentendimento entre um marinheiro e um soldado, no qual o primeiro foi punido por ter esfaqueado o militar.

No dia 28 a esquadra tentou levantar vela, mas foi impedida por uma forte trovoada. Buscando proteção para os perigos que vinham adiante:

em 29 atendendo o Coronel Comandante a prolongada viagem a que se expunha e os inumeráveis perigos a que todos íamos expostos, movidos do zelo e salvação das almas, e que na companhia iriam muitos que só por força se conduiram delas mandou que sofrera de ásperos castigos, se confessassem toda a pessoa dentro em o termo de dez dias, ou fosse deste ou daquele sexo, para o que mandou botar um bando ao som de caixas, e depois de publicado, o mandou pregar no mastro grande, e as embarcações miúdas que a sua impossibilidade, lhe não permitia trazerem capelão lhe mandou os da esquadra para fazerem o tal efeito.

Em 1º de agosto a esquadra deixou a ilha de Santa Catarina e rumou para o Rio da Prata. Já no terceiro dia enfrentaram novo temporal, tão rigoroso que nos vimos assoberbados dos mares e toda a noite com um grande trabalho fazendo sinais às mais embarcações da conserva e pela manhã nos achamos sós. Ficou a embarcação estagnada a espera das outras naus até o dia 5, onde se tornou a ver toda a conserva. No dia 7, a frota encontrou uma embarcação que vinha de Colônia com destino à Bahia relatando o péssimo estado em que se encontrava a praça, pois havia lá muita doença e morria muita gente e a maior parte de fome.

Rodrigo Salaberry dos Santos

Mestrando em História – PPGH/UFPel

Colonia_de_Sacramento

Farol e ruínas da Fortaleza de Colônia do Sacramento.

Fonte:  http://4.bp.blogspot.com/-ssVI3us9-ME/U1ah18-gOpI/AAAAAAAACtU/rtHLBW5bbrU/s1600/Colonia_de_Sacramento.jpg

Passo dos Negros e Ponte dos Dois Arcos

Coluna publicada no Jornal Diário da Manhã do dia 16/08/2014

(…)Estas lagoas recebem as águas de vários rios que nela entram e deságuam no Oceano.Pelo Rio Grande, o qual treze léguas acima da foz recebe as águas da lagoa mirim, que lhe são comunicadas pelo rio do São Gonçalo, o qual antigamente se chamava o sangradouro da lagoa mirim. (…)(…)As mesmas embarcações, que de ordinário são bergantins e sumacas ali carregam e descarregam as fazendas, que descem pelo rio São Gonçalo em hiates.(..).(…)O mesmo rio do São Gonçalo até a sua entrada no Rio Grande até a Lagoa Mirim corre  trinta léguas, em que recebe em si vários mais pequenos; e com todo este notável concurso de águas, se levam estas tão serenas e vagarosas, que facilitam a navegação e embarcações de remo e de vela, sendo pequenas, como hiates em razão do pouco fundo do mesmo rio em a maior parte de seu curso: não tem pontes mas tem três passos públicos em toda a mencionada extensão, nos quais a passagem de uma para outra banda em canoas,  que vendem  a coroa de Portugal os preços da rematação, feita  em hasta publica anual ou trienalmente, conforme querem os procuradores da fazenda Real. O primeiro passo se chama dos negros.(…)

Revista Princeza do Sul, junho de 1951; Acervo do IHGPEL

(…)O Governo para garantir a estabilidade das forças do exército sediadas em Pelotas manteve uma flotina de canhoeiras, atracadas no cais do Povoado de São João,”Passo dos Negros”, único Passo na margem do canal São Gonçalo, que dispunha de um serviço de balsas para o outro lado do vizinho município de Rio Grande. Esse lugar denominava-se “Povoação de São João”, e era também conhecido como Estação das Canhoeiras, Passo Rico ou Povo do Passo dos Negros.

No ano de 1820 foi levantada uma planta do local, contendo 3 ruas longitudinais e 3 transversais com os seguintes nomes: Rua do Campo, Rua São João e Rua da Praia e as transversais do Padeiro-da Divisa e do Jerônimo.

Em 1874 a Câmara tomando conhecimento de possuir ali um Logradouro Publico, cedido pelo governo da Província em 1834, com uma área de 200,20 ctm de extensão, designou o agrimensor da Câmara, sr, Romnualdo de Abreu e Silva, para fazer o levantamento do Local  e a regularização do mesmo.O transporte para Rio Grande , era atendido por via fluvial e terrestre em carros de bois e hiates á vela. Nas margens do São Gonçalo estavam estabelecidas as charqueadas. (…). Com o aparecimento dos navios a vapor e a condução da linha da estrada de ferro para Rio Grande, o “Passo” cedeu lugar e perdeu a importância.

Revista Princeza do Sul, junho de 1951; Acervo do IHGPEL

(…) Ficou a Câmara inteirada, resolvendo que se cumprisse oportunamente. Portaria da mesma Presidência nº 7, daquele mesmo mês, autorizando a Câmara a dispender mais a quantia de 1:753$840 reis com a conclusão dos bueiros da Estrada do Passo dos Negros: ficou inteirada. (…)Não havendo mais objetos, levantou-se a sessão.

Atas da Câmara Municipal, 10 de maio de 1854; Acervo BPP

  (…) A Comissão incumbida de emitir seu parecer sobre a proposta do Sr. Vereador Almeida, para que se mande abrir a estrada que vai da Costa de Pelotas ao Passo dos Negros no lugar fechado pelo Sr. Jacintho Antonio Lopes,é de parecer que sendo esta medida de reconhecida utilidade e público,seja quanto antes este proprietário obrigado a dar livre transito por dentro de seu estabelecimento, ou por terrenos que ficam por  de trás da mangueira de sua charqueada, aonde existem dois antigos valos que indicam o lugar em que deve ser aberta a referida estrada. (…)

Atas da Câmara Municipal, 19 de Dezembro de 1878; Acervo BPP

                                                             

 Organizado por Maria Roselaine da Cunha Santos

                                                    Presidente do IHGPEL

IMG_1981Foto: Gilberto Demari Alves

Embarcações do século XVIII – Religiosidade (2ª Parte)

Coluna publicada no Jornal Diário da Manhã do dia 26/07/2014

O coronel comandante organizou uma festa religiosa em louvor a Santa Tereza, em que a tripulação foi se preparando do dia 11 a 14 quando enfim se comemorou, onde:

…se competiram várias loas[1] e entremeses, com figuras ricamente vestidas por se acharem na nau algumas senhoras que iam de passagem para o Rio de Janeiro, as quais concorrerão com todo o preciso, para o tal festim, a que também assistiram. Logo que entraram à dita festa sairam três figuras, as quais vinham deitando uma loa em louvor da gloriosa Santa Teresa, pela grande fé que o coronel tinha com a dita Santa, a quem era muito devoto… Estes se principiaram logo que se acabou a dita loa, os quais se não escrevem aqui porque esta não passe de divertimento [e] enfado e acabados eles se principiarão novas danças as quais se faziam mais vistosas compostas com o sereno da noite. Acabou-se este festim pelas duas horas da madrugada que as ditas se recolheram a descansar os que até ali vigiavam.

 

Para o autor Fábio Pestana Ramos as comemorações religiosas tinham como objetivo apaziguar os ânimos da tripulação, canalizando as atenções na vida espiritual a fim de exercer um maior controle social entre os embarcados. Além disso, também tinha a função de entrosar os participantes, assim como, comemorar um dia santificado era uma tentativa de domar as forças da natureza, para a mentalidade da época, onde no imaginário naval lusitano, em que uma tempestade pode acabar em uma tragédia, a proteção divina era uma garantia de sobrevivência em alto mar. Dessa forma, os dias santos eram constantemente comemorados, com a maior solenidade possível, como a comemoração do dia de Santa Rita, onde com missa cantada, e toda a mais solenidade que podia o lugar e permitiam a devoção dos devotos, pois mereceram que por intercessão da dita santa nos achamos. Juntamente com os relatos de festividades também vinham os primeiros relatos de fome, doença, e morte nas embarcações, até a chegada ao Rio de Janeiro, no dia 28 de maio.

Continua…

 

Rodrigo Salaberry dos Santos

Mestrando em História pela UFPel – PPGH



[1] A expressão “Loa” deriva-sse da palavra latina Lous, que quer dizer Louvor… Cf. Raphael Bluteau, Vocabulário Portuguez e Latino, vol. 5, 1721

Embarcações do século XVIII – Religiosidade

Coluna publicada no Jornal Diário da Manhã do dia 19/07/2014

Na tentativa de socorrer Colônia do Sacramento sitiada pelos espanhóis em 1735 até 1737, a metrópole portuguesa enviou frotas para recuperar e expandir o domínio luso no Rio da Prata. Neste breve coluna estudaremos alguns aspectos do cotidiano dessas embarcações, as dificuldades encontradas em efetivar os designíos da coroa portuguesa, a vida dos soldados e marinheiros, relações religiosas, assim como os problemas logísticos encontrados.

A metrópole portuguesa participou do esforço de guerra, pois circulava a notícia sobre o empenho de Castella e certificado, q. no Porto de Ferrol se preparavão duas Naos com gente, e bastimentos para engrossar o Campo, fazendo D. João V ordenar a ida de uma frota de socorro a Colônia do Sacramento. No dia 25 de março de 1736, zarpava de Lisboa uma pequena esquadra, composta de três naus, Nossa Senhora da Vitória, Nossa Senhora da Conceição e a fragata Nossa Senhora da Lampadosa sob o comando do capitão-de-mar-e-guerra Luís de Abreu Prego.

Logo que zarpou a frota já enfrentou seu primeiro temporal, coisa que seria comum em todo o restante da viagem, e parece que ensaiando-nos para o futuro, resultando em grande prejuízo e desespero entre os embarcados. Como grande boa parte da tripulação eram feitas de soldados não sendo experimentados na navegação lhe causava dobrado trabalho o grande enjoo que padecia, sendo necessário amarrar cordas no convés para que se segurassem. Os temporais poderiam durar vários dias, causando grandes problemas e por vezes, fazendo com que as naus da esquadra se perdessem de vista.

Em primeiro de abril, sábado de aleluia, com o tempo mais ameno, se fez missa e depois se abriu as instruções de Sua Majestade para a campanha do Prata, nomeando Luís de Abreu Prego como Coronel de suas Armadas. Três objetivos principais foram definidos, liberta Colônia do Sacramento do sítio espanhol, tomar Montevidéu e povoar a Baía do Rio Grande de São Pedro e campanhas circunvizinhas, que igualmente pertencem aos meus domínios.

Durante a viagem era constante a preocupação do comandante com relação aos preceitos religiosos, assim como entre os demais países católicos, tanto que observamos que até na menor embarcação era necessário um capelão. No dia 14, a vista das Ilhas Canárias, mandou o coronel comandante que todos fossem obrigados a se confessar dentro de 40 dias, o que se executou prontamente. Além disso, mandou que os militares se exercitassem alguns dias, para passar o tempo e se preparassem para o futuro, em que se faziam exercícios de fogo, e atirar ao alvo.

Notadamente, nem só de deveres era o cotidiano nas embarcações, pois também havia jogos, danças e festas, formas de passar o tempo e disfarçar o trabalho. Essa prática era comum entre os oficiais portugueses, que diante de um cotidiano de disciplina rígida, imposta pela vida no mar, davam espaços para a necessidade de extravasar as tensões a bordo utilizando as festas a seu favor, obtendo assim, o controle sobre os subordinados.

imagem coluna 19.07

 

Continua…

 

Rodrigo Salaberry dos Santos

Mestrando em História pela UFPel – PPGH