Embarcações do século XVIII – Final

Coluna publicada no Jornal Diário da Manhã do dia 09/08/2014

Do dia da chegada até o dia 11 de junho não foi permitido o desembarque da tripulação, provavelmente por medo de que os soldados desertassem. Nesse mesmo dia as tropas desembarcaram na Ilha das Cobras para se exercitassem com seus comandantes e com as tropas locais que foram somadas ao socorro. Fez-se então um rigoroso exercício de fogo, com avançadas à fortaleza, que parecia o maior furor da guerra. Saíram feridas algumas pessoas, entre as ditas o capitão de mar e guerra André Gonçalves Nogueira e acabou-se pelas 6 horas da tarde. No dia 13 também se repetiu o mesmo exercício, em que o General deu ordem que esta fosse a que avançasse, a assim se formaram fora da fortaleza prontos com escadas e granadas, e todos os mais artifícios de guerra e artilharia, a certo sinal avançaram à Praça por três partes e a renderam. Esses exercícios tinham como objetivo treinamento para atacar e tomar uma fortaleza, nesse caso, provavelmente Montevidéu como era a ordem do soberano português.

O conhecimento de que a frota tinha como rumo o Rio da Prata era revelado somente aos oficiais. Ao chegar ao Rio de Janeiro começou a correr o rumor entre os tripulantes sobre esse destino, o que era corroborado por toda a preparação para a guerra, apesar do esforço das autoridades em evitá-lo. Com esta notícia desertaram alguns soldados, ainda que alguns apareceram e foram castigados, pois estes não queriam ir para o inferno do Rio da Prata. Diante disso, novamente as autoridades suspenderam o direito de desembarcar. O autor do diário não dá a entender o motivo do medo da tripulação, se é temor pela guerra ou pelas dificuldades de navegação, no entanto as duas razões devem ter pesado, os embarcados vinham enganados pensando que a esquadra viria só até o Rio de Janeiro, pois o socorro sempre foi mantido em segredo para que os espanhóis não soubessem dos reforços portugueses vindos da metrópole.

No dia 25 de junho, na pior época possível para a navegação nos mares do sul, em pleno inverno, partiu a esquadra com destino à ilha de Santa Catarina. Logo no terceiro dia de viagem experimentaram mares com mau tempo, que culminou num temporal que causou grande trabalho para a tripulação. Em 5 de julho chegaram à Santa Catarina, para dar ordens ao Coronel Cristóvão Pereira de Abreu para que reunisse pessoas em Laguna e que preparasse a chegada do brigadeiro José da Silva Paes na margem sul do canal de Rio Grande, preparando os meios necessários para o estabelecimento da fortificação, que viria a acontecer quando a expedição voltasse do Prata. Cristóvão Pereira era um ótimo prático na campanha, e por isso era uma peça chave nos novos intentos portugueses na região, já que estabelecia conexões com os indígenas, os castelhanos, Colônia do Sacramento e as Minas através de seus negócios, portanto, ficava a ele a tarefa de arrebanhar o gado para a alimentação das tropas, tratar com os indígenas que ali podiam estar e preparar o terreno para a nova povoação. Neste lugar, a esquadra se carregou de mantimentos para seguir viagem e se fizeram novos exercícios com os soldados. Há um relato sobre um desentendimento entre um marinheiro e um soldado, no qual o primeiro foi punido por ter esfaqueado o militar.

No dia 28 a esquadra tentou levantar vela, mas foi impedida por uma forte trovoada. Buscando proteção para os perigos que vinham adiante:

em 29 atendendo o Coronel Comandante a prolongada viagem a que se expunha e os inumeráveis perigos a que todos íamos expostos, movidos do zelo e salvação das almas, e que na companhia iriam muitos que só por força se conduiram delas mandou que sofrera de ásperos castigos, se confessassem toda a pessoa dentro em o termo de dez dias, ou fosse deste ou daquele sexo, para o que mandou botar um bando ao som de caixas, e depois de publicado, o mandou pregar no mastro grande, e as embarcações miúdas que a sua impossibilidade, lhe não permitia trazerem capelão lhe mandou os da esquadra para fazerem o tal efeito.

Em 1º de agosto a esquadra deixou a ilha de Santa Catarina e rumou para o Rio da Prata. Já no terceiro dia enfrentaram novo temporal, tão rigoroso que nos vimos assoberbados dos mares e toda a noite com um grande trabalho fazendo sinais às mais embarcações da conserva e pela manhã nos achamos sós. Ficou a embarcação estagnada a espera das outras naus até o dia 5, onde se tornou a ver toda a conserva. No dia 7, a frota encontrou uma embarcação que vinha de Colônia com destino à Bahia relatando o péssimo estado em que se encontrava a praça, pois havia lá muita doença e morria muita gente e a maior parte de fome.

Rodrigo Salaberry dos Santos

Mestrando em História – PPGH/UFPel

Colonia_de_Sacramento

Farol e ruínas da Fortaleza de Colônia do Sacramento.

Fonte:  http://4.bp.blogspot.com/-ssVI3us9-ME/U1ah18-gOpI/AAAAAAAACtU/rtHLBW5bbrU/s1600/Colonia_de_Sacramento.jpg

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