Sobre Folclore Brasileiro – primeira parte

Coluna publicada no Jornal Diário da Manhã do dia 23/08/2014

Em 1944, Joaquim Ribeiro, em seu livro sobre Folclore Brasileiro, esboçou uma divisão da música popular brasileira em áreas geográficas assinaladas pelo tipo de atividade musical predominantemente entre os seus habitantes e afinidade de elementos técnicos, encontrada entre essa e outras atividades musicais da mesma área. Estabeleceu, assim, as seguintes: 1º da embolada, no Nordeste; 2º da moda na área agrícola do Sul; 3º do Jango, na zona de influência banta; 4º dos aboios, na zona pastoril do sertão. Tomando por base esse tipo de classificação, e ampliando e apurando a de Joaquim Ribeiro, que ele mesmo considerava provisória e sujeita amodificações inspiradas “pelos inquéritos diretos, que poderão oferecer dados para sistematização mais exaustiva” podemos chegar a uma divisão do país em nove áreas, que são as seguintes: 1º Área Amazônica (na bacia Amazônica), ainda escassamente estudada; 2º Área da Cantoria (compreendendo o sertão nordestino e sua projeção pelo interior baiano), caracterizada pela prática dos desafios poéticos – musicais, canto dos romances tradicionais, das louvações improvisadas, emprego da técnica antifonal (cada estrofe confiada alternadamente a um dos cantadores), da rebeca e da viola como instrumentos acompanhantes, melodias de sento tonal debilitado ou inexistente (presença de escalas exóticas), ritmo livre, independente do tempo musical; 3º Área do Coco (no litoral nordestino), com predominância desse canto de dança e sua variante, a embolada, emprego do ganzá (chocalho geralmente cilíndrico), percussão de palmas e intervenção de um refrão coral curto, bem ritmado, no fim e ás vezes no meio da estrofe solista, que pode ser improvisada e tem sempre significação jacosa, ou mesmo satírica; 4º Área doa Autos (tendo Alagoas e Sergipe com núcleos principais, mas ramificando- se por quase todos os demais Estados), abrigando o riquíssimo folclore desses folguedos populares dançados e cantados, de origem ibérica (cheganças, fandango), de extração negra (congos, quilombos), de temática ameríndia (caboclinhos, caiapós, danças e tapuios), ou de formação cabocla (bumba- meu- boi); 5º Área do Samba (principiando na zona agrícola da Bahia  e cobrindo os Estados do Sul até S. Paulo com núcleos isolados em outros pontos de mais forte afluência negra, como Pernambuco), caracterizada pelo emprego abundante dos instrumentos de percussão e conseqüente complexidade rítmica, sistematização da sincopa, refrão coral contrapondo- se à estrofe solista e predominância da forma coreográfica do samba, de que são subsidiários o  Jango e outros tipos de dança  com os mais variados nomes, além dos cantos rituais de macumbas e candomblés;  6º Área da Moda de Viola (projetando- se de S. Paulo, onde confina com a Área do Samba, para o centro e o sul do país) caracterizada pela constância do cantos e duas vozes paralelas, frouxidão  do ritmo musical e emprego  da viola; 7º Área do Fandango  (acompanhando o litoral dos Estados sulinos), musicalmente dependente da área anterior, porém definida pela preservação de velhas danças sapateadas e palmeadas, como o chimarrita, o anu, o queru  mana, etc.; 8º Área Gaúcha (na região dos pampas, extremo sul do país), com predominância absoluta do arcodeão, lá chamado  gaita, prática dos desafios ou cantos à porfia, importação de ritmos coreográficos e vocabulário platinos; 9º Área da Modinha (dispersa pelos centros urbanos mais antigos), compreendendo  não somente esse tipo de canção tradicional, como os choros, e apresentando um tipo de melodia exageradamente sentimental, rebuscada, em que predominada o modo menor (ao contrário das demais áreas), alterada por excessivo cromatismo e abundantes artifícios harmônicos, e confiada à voz humana ou a instrumentos de sopro, como a flauta ou clarinete, com acompanhamento de violões e cavaquinhos. Sobre todas essas áreas estende- se o Ciclo dos Cantos Infantis, de acalentar crianças ou para servir ás suas rodas coreográficas e jogo; em sua maioria são cantos de pura importação européia, integralmente tradicionalizados, e conservam, até hoje, grande vitalidade.

Texto de Luís da Câmara Cascudo extraído Dicionário do Folclore Brasileiro, p.514. Parte integrante do arquivo do IHGPEL e organizado por Rosilene Silva, aluna do curso de História – Licenciatura da UFPel, estagiária do IHGPEL

 

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Fonte da imagem: http://www.brasilcultura.com.br/antropologia/dancas-folcloricas-brasileiras/

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