Aspectos Históricos

ESTRUTURAÇÃO URBANA DE PELOTAS: COLÔNIA E IMPÉRIO

Professora Ester Judite Bendjouva Gutierrez

Após o tratado de Santo Idelfonso, assinado em 1777 entre as coroas ibéricas, as terras localizadas ao norte do rio Piratini começaram a ser doadas através das chamadas sesmarias. Ao mesmo tempo, arquitetos militares das comissões demarcatórias da fronteira aconselhavam o governo central a doação de parcelas menores, chamadas datas de terras. Francisco João Róscio, Sebastião Francisco Bettamio e Moniz Barreto falavam das mais de vinte mil vacas errantes nos Campos Neutrais. Indicavam o rincão de Pelotas para a manufatura das carnes. Por isto, a sesmaria do Monte Bonito, localizada entre os arroios Santa Bárbara e Pelotas, a serra dos Tapes e o canal São Gonçalo, ligação natural entre as lagoas dos Patos e Mirim, teve um parcelamento específico.

Em 1780, no encontro do arroio Pelotas com o canal São Gonçalo, sofreu uma segunda divisão de terras. Eram 19 datas de terras que durante o século XIX transformaram-se em mais de trinta salgas, onde não existia espaço destinado à criação de gado. Nesta área se consolidou o maior núcleo da produção charqueadora meridional e o palco da escravidão da fronteira sulina da colônia luso-brasileira. Durante os dias mais quentes do ano, quase 2000 trabalhadores escravizados passavam cobertos pelo sal e pelo sangue das carnes; no inverno, pelo barro úmido que extraíam para a produção de tijolos e telhas nas olarias existentes nas salgas. Estes charqueadores, no final da matança, no outono, período da quaresma, iam a Rio Grande cumprir seus deveres religiosos. Por isso, buscaram junto às autoridades administrativas e eclesiásticas a instalação de uma freguesia.

Transformar terras rurais em urbanas era e é um bom negócio. Enquanto os proprietários tentavam chegar a um acordo sobre o local, Antônio Francisco dos Anjos, que tinha comprado um dos potreiros de uma charqueada, e o padre Felício, começaram a erguer a igreja na propriedade de Antônio Francisco. Neste lugar, em 1812, foi instalada a Freguesia de São Francisco de Paula, futura cidade de Pelotas.Em 1815, o piloto Maurício Inácio da Silveira realizou o levantamento da povoação. O desenho apresentou um reticulado heterogêneo, com ruas mais largas na direção norte/sul e travessas mais estreitas no sentido leste/oeste. A igreja com um cemitério atrás e uma pequena praça na frente foram construídos em um dos quarteirões. Uma das ruas foi deslocada para a perspectiva terminar na porta principal do templo. No limite norte, transição entre a área urbana e a rural, foi previsto o Passeio Público, hoje avenida Bento Gonçalves.

Em 1819, instalaram um novo cemitério na atual rua Santa Cruz e, em 1825, o transferiram para junto do Passeio Público, em frente ao lugar da primeira forca. Em 1855, estava lotado, com a cólera, foi aberto o cemitério da Santa Casa. O desenho revelou o conhecimento erudito que Maurício Inácio tinha. Em 1825, a Tablada, local de comercialização do gado, foi instalada. Os negócios incentivaram o crescimento da povoação. Em 1831, foi fundada a Sociedade Cênica Teatro Sete de Abril. Três anos após, ergueram o Teatro. Com modificações, este equipamento público permaneceu até os dias de hoje.Em 1832, a freguesia foi elevada à categoria de Vila. No chamado “Campo”, no presente praça Coronel Pedro Osório, foi erguido o pelourinho, símbolo da autonomia municipal e que servia para os castigos dos escravizados urbanos em público. Em 1834, os vereadores eleitos pediram ao arquiteto da câmara Eduardo Ernesto Krestchemer elaborar nova planta.

O risco de Eduardo Ernesto prolongou o reticulado no sentido sul do canal São Gonçalo, lugar onde se instalava o porto.  O projeto não ficou muito diferente da atualidade quanto à trama urbana e às praças previstas. Nesta área permaneceram as praças da Matriz (José Bonifácio); o “Campo” (Pedro Osório); do Porto (Domingos Rodrigues); das Carretas (Vinte de Setembro); da Cavalhada (Piratinino de Almeida). Por fim, foi incluída outra praça, a Henrique d´Ávila (Cipriano Correa Barcellos, também conhecida como do Pavão ou dos Enforcados – é possível que este nome lembre a forca, transferida para as proximidades em meados do século XIX.)Em 1835, a vila de São Francisco de Paula foi elevada à categoria de cidade, com o nome de Pelotas, referência ao arroio por onde transitavam pequenas embarcações em couro moldados na forma de bola, conhecidas como pelotas. Em meados do século, o desenho foi aumentado na direção norte. Pode ter sido risco de Roberto Offer ou de Otto Edgar Tiedemann.

Neste terceiro loteamento, as vias na direção leste/oeste foram mais amplas e os quarteirões, maiores. A quarta expansão ocorreu no terceiro quartel do século XIX, na direção da várzea do arroio Pepino, a leste, e manteve a trama original. No limite oeste, o arroio Santa Bárbara era destinado ao despejo das imundícies e, em um ponto mais abaixo, à lavagem das roupas.Após a revolução Farroupilha, na área rural, na serra dos Tapes, principalmente, através de particulares, foi fomentada a imigração e a colonização.  No final dos anos cinquenta, foram construídos pontilhões, pontes e passos nas estradas da Campanha e da Serra, respectivamente, nas direções sul e norte. Igualmente, neste período, começaram as construções das pontes urbanas. Muito frágeis, seguidamente tiveram de ser reconstruídas. Também as ruas iniciaram a receber pavimentação e, para o escoamento da água das chuvas, a ter bueiros.A área urbana foi dotada de três importantes equipamentos de uso público: o Mercado, a Santa Casa e a Beneficência. As tratativas para o prédio do Mercado Público iniciaram em 1846.

O projeto de Roberto Offer teve como construtores, nas diferentes etapas, Teodolino Farinha e José Vieira Pimenta. A Santa Casa de Caridade foi fundada em 1846. A primeira parte da construção, 1860 e 1872, coincidiu com a Guerra do Paraguai. O projeto foi de autoria de José Viera Pimenta, mesmo construtor da cisterna do mercado. Em 1874, começaram a erguer o segundo pavimento e, em 1881, a capela, ambos os projetos do arquiteto José Izella. Nas entressafras, os charqueadores ofereciam seus cativos como serventes gratuitos. Em 1857 foi fundada a Beneficência Portuguesa.

O prédio foi construído entre 1859 e 1861.Em 1850, com o final do tráfico transatlântico de trabalhadores escravizados, grande parte dos cativos urbanos foi vendida para as fazendas de café de São Paulo e do Rio de Janeiro. Portanto, a partir desta data as áreas urbanas brasileiras começaram a ser dotadas de infraestrutura e equipamentos, o que facilmente relaciona desescravização e urbanização. Em Pelotas, na década de sessenta, houve aumento do número de trabalhadores escravizados na área charqueadora e na produção da carne salgada. Como consequência da impossibilidade de importar novos trabalhadores servis, os senhores começaram a alimentar melhor os cativos. Em 1865, para melhor escoar a produção salgadora, foi autorizada a organização de desobstrução do São Gonçalo. Na década de setenta a cidade iniciou a receber melhoramentos.Em 1875, o centro urbano substitui a claridade mortiça dos lampiões públicos a óleo de baleia, instalados trinta anos antes, pela iluminação a gás hidrogenado. As praças, as casas e os comércios se iluminaram. Teve início a vida noturna urbana.

A alegria durou pouco. O fornecimento de gás fora suspenso. Em 1876, o combustível passou a ser o querosene. A noite permaneceu escura e perigosa. Em 1889, começou a ser levantada a usina que iria fornecer a energia elétrica.A praça Pedro Osório pode ser considerada exemplar para representar os  períodos colonial e imperial. Em 1832, quando ergueram o pelourinho e, em 1873, quando no mesmo lugar, a Companhia Hidráulica Pelotense, estabelecida em 1871, instalou o chafariz, a água tratada passou a ser vendida. Os aguadeiros que retiravam gratuitamente das fontes e cacimbas entraram em greve, que talvez tenha sido a primeira da província do sul. Entre 1873 e 1875, foram instalados mais três chafarizes. Peças de ferro fundido, como estes chafarizes, e outros elementos, como estátuas, luminárias, vasos, colocados em jardins públicos e privados eram chamados pelos franceses de fonts d´art. A partir de 1830, principalmente numa região situada perto de Paris, iniciaram a ser produzidos aos milhares. Literalmente, fundiram arte e técnica industrial. Na região da Champagne ficava a fábrica de August Durenne, o fornecedor das peças pelotenses.

Em 1875, na praça Piratinino de Almeida, foi erguida caixa d´água de ferro comprada da empresa Hanna Donald & Wilson, Makers, Abbey Works, de origem escocesa.Nos anos setenta, foi fundada a Companhia de Ferro-Carril e Cais de Pelotas. Os trapiches portuários foram melhorados. Os bondes puxados a burro começaram a circular em 1873. Em 1884, ficou pronta a estrada de ferro que ligava o porto de Rio Grande à cidade de Bagé. Em seguida a linha de bondes alcançou e estação ferroviária de Pelotas. Nesta data, a Linha Central dos bondes ligava o porto à igreja matriz; a Linha da Tablada, o mercado ao Matadouro e à Tablada, e a Linha do Prado passava pelo Cemitério, pelo Prado e terminava no Parque Pelotense, fundado em 1883.

Também chamado de Souza Soares, o parque abrigava um laboratório de remédios homeopáticos e uma grande área verde tratada para receber visitantes.  No ano da Abolição, iniciaram tratativas para a implantação do esgoto cloacal da cidade.O dia 7 de setembro de 1878 foi marcado pela colocação das pedras fundamentais do Paço Municipal e da Biblioteca Pública. O primeiro teve projeto do engenheiro da câmara, o agrimensor Romualdo de Abreu e Silva e construção de Carlos Zanota.

O projeto do primeiro pavimento da Biblioteca foi de José Izella. Para esta construção foi doado algum material de construção e contou com trabalhadores escravizados emprestados e alugados.  Por fim, dois franceses, Dominique Pineau e Dominique Villard, foram responsáveis pelo projeto do Liceu de Agronomia, Artes e Ofícios.Em especial, os prédios e a área urbana foram moldados e erguidos pelos braços escravizados de africanos e seus descendentes enquanto que os europeus e seus descendentes a projetaram e a decoraram.

As opções executadas foram decorrentes de soluções estéticas de antigas concepções renascidas, por profissionais de formação acadêmica, quase todos estrangeiros, e do gosto de senhores endinheirados que queriam mostrar erudição e disfarçar a escravidão.  Também em Pelotas, o final do tráfico de escravos africanos, a diminuição de cativos urbanos teve como consequência a sua urbanização.

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